
Foto: Roberto Stuckert Filho/Divulgação
O ovo da serpente
Nas últimas décadas, sob novas formas e por um amplo conjunto de motivos, o obscurantismo renasceu das trevas. Atende agora pelo nome “fundamentalismo religioso”. Se o debate prosseguir agendado pelo atraso, ganhe quem ganhar, estará chocando o ovo da serpente.
Marcos Dantas
“Se Hitler invadisse o inferno, eu me aliaria ao demônio” – assim falou Churchill, o grande líder britânico da Segunda Guerra Mundial, quando lhe questionaram a aliança firmada com Stálin, o grande líder soviético na mesma Guerra, aliança esta decisiva para a derrota da barbárie nazista.
Bem que Hitler desejava muito aliar-se aos britânicos. Lamentou explicitamente até o fim da Guerra e da própria vida que os seus “primos” raciais não o tivessem “compreendido”. Não que Hitler e Stálin não tenham, em um dado momento, firmado um pacto de aliança. Mas ambos sabiam que era um pacto de ocasião, a ser rompido na primeira oportunidade, quando um lado, ou outro se julgassem preparados para fazê-lo. Foi rompido por Hitler mas, por efeito, entre tantos outros fatores, também desse pacto, a Guerra acabou vencida por Stálin e seus aliados capitalistas democráticos, Churchill e Roosevelt.
Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos eram potências capitalistas. A União Soviética, potência comunista emergente. Capitalismo e comunismo eram inimigos viscerais. Mas o comunismo e o capitalismo democrático souberam se unir contra a besta nazista. O historiador Eric Hobsbawm, em seu A Era dos Extremos: o Breve Século XX, nos dá a explicação:
“as linhas divisórias cruciais nesta guerra civil não foram traçadas entre o capitalismo como tal e a revolução social comunista, mas entre famílias ideológicas: de um lado, os descendentes do Iluminismo do século XVIII e das grandes revoluções, incluindo, claro, a russa; do outro, seus adversários [...] A Alemanha de Hitler era ao mesmo tempo mais implacável e comprometida com a destruição dos valores e instituições da ‘civilização ocidental’ da Era das Revoluções, e mais capaz de levar a efeito o seu bárbaro projeto [...] o antifascismo, por mais heterogêneo e transitório que fosse sua mobilização, conseguiu unir uma extraordinária gama de forças. E o que é mais, essa unidade não foi negativa, mas positiva, e em certos aspectos duradoura. Ideologicamente, baseava-se nos valores e aspirações partilhados do Iluminismo e da Era das Revoluções: progresso pela aplicação da razão e da ciência; educação e governo popular; nenhuma desigualdade baseada em nascimento ou origem; sociedades voltadas mais para o futuro que para o passado” (Companhia das Letras, 2ª Ed., pgs. 146,147, 174).
Em suma, por mais antagônicos que fossem – e eram –, o liberalismo ocidental e o comunismo soviético tinham origem numa mesma matriz ideológica, política, ontológica, eram ramos divergentes de um mesmo frondoso tronco: o Esclarecimento racional, laico, republicano, universalista, igualitarista e progressista que veio transformando o mundo desde os tempos de Cromwell, Jefferson e Robespierre. O nazismo era a negação das grandes promessas do projeto Iluminista, a negação da igualdade entre os povos e entre as classes, a recusa do Estado de Direito, o escárnio dos direitos individuais e sociais dos homens e das mulheres.
Não se trata neste artigo, de discutir se aquelas promessas se cumpriam ou não. Liberais e comunistas se acusavam mutuamente de traí-las. Mas nisto, também, reafirmavam seus compromissos com um programa de liberação ou desalienação da humanidade. O nazismo representava o retorno, ainda que num estágio superior, ao obscurantismo e à barbárie. A interrupção das Luzes. Uma nova escuridão. Contra isso, apesar de suas profundas diferenças e mútuas desconfianças, uniram-se Churchill, Roosevelt e Stálin.
E venceram.
Nas últimas décadas, sob novas formas e por um amplo conjunto de motivos que não vem ao caso discutir aqui, o obscurantismo renasceu das trevas. Atende agora pelo nome “fundamentalismo religioso”. Ele pode ser muçulmano, pode ser católico, pode ser cristão sob outras denominações – em hipótese alguma significando dizer que já conquistou ou venha a conquistar a maior parte dos seguidores dessas religiões. De fato, recruta o grosso dos seus adeptos, como o nazismo recrutava, na grande massa popular pobre, posta nas fímbrias do progresso, por isto ressentida, sobretudo ignorante. No caso dos muçulmanos, tem sido capaz de levar centenas de jovens à auto-imolação espetacular, fornecendo bons pretextos para reforçar os aparatos de guerra, segurança, espionagem e repressão das potências capitalistas, sobretudo dos Estados Unidos. No caso dos cristãos, ainda não chegou a tanto, mas já se mostra capaz de agir ordenada e fortemente na recuperação de parte do terreno perdido para dois séculos de avanços seculares, no mundo e também no Brasil.
Estamos assistindo no Brasil, neste momento, a um debate inimaginável neste século XXI – em que pese este século estar sendo capaz de se revelar cada vez mais surpreendentemente inimaginável. O nosso Estado Democrático de Direito está correndo o risco de proporcionar-nos uma eleição decidida pelo obscurantismo e irracionalidade. Sabemos que a ainda então minoria nazista chegou ao poder, na Alemanha, também através dos mecanismos democráticos. Por isso, não está sendo possível entender que democratas, republicanos, lídimos herdeiros e formuladores do melhor das Luzes, queiram agora, no Brasil, chegar ao poder com a ajuda das Trevas.
Está acontecendo nas grandes periferias urbanas e rurais brasileiras, uma insidiosa, granular, sussurrante campanha fundamentalista contra a candidata do PT, Dilma Rousseff. Multiplicam-se relatos assustadores de conversas de “pastores” com seus crédulos, dizendo coisas como “a Dilma vai fechar a Igreja”. Isso dito a alguém, por exemplo, que, nos últimos oito anos, graças a programas do Governo Lula, comprou e mobiliou casa, tem emprego, melhorou de vida material. Mas não melhorou cultural e educacionalmente (e isso também é culpa do governo Lula!). Acredita piamente no “pastor”. E vai votar numa mentira porque o debate eleitoral reduziu-se à agenda obscurantista, quando teríamos muito o que debater sobre educação, infra-estrutura, política externa etc.
Em resposta, circulam na internet panfletos acusando Serra de já ter fechado templos evangélicos em São Paulo. Isto porque a cidade de São Paulo faz cumprir suas leis que protegem o cidadão da agressão sonora desses templos que teimam em desrespeitar o espaço público e o direito dos outros à paz e tranqüilidade no resguardo do lar. Se Serra, por ventura, tem algo a ver com isso, merece elogios, não críticas.
Que evangélicos, carismáticos e quejandos façam o que estão fazendo, é de lamentar mas não admira. O que admira e muito preocupa é o oportunismo eleitoral de uma parte da política laica e republicana que parece não se lembrar da lição de Churchill. O Brasil civilizado tem muito ainda a construir, inclusive para deter esse avanço de volta à barbárie, o que só logrará se incorporar à modernidade educacional e cultural, além da material, aquela massa popular que permanece vulnerável às prédicas medievais. Uma eleição é sempre o momento de a sociedade discutir os melhores caminhos para seguir avançando, avaliar e criticar o que já foi feito, debater suas alternativas. É natural, numa sociedade de classes, a diferença programática. Mas essa diferença se manifesta num mesmo campo histórico. Os fundamentalistas não podem ser aceitos nesse debate, porque, por definição e por suas práticas, agem pela ignorância, para a ignorância, com a ignorância.
Ora, Serra e Dilma, por formação, histórias de vida, lutas políticas, não têm posições assim tão distintas em relação a temas como “aborto”, “homossexualidade” e similares. Ninguém pode ser “a favor” do aborto, salvo talvez, algumas feministas radicais e egoístas; ninguém apóia a discriminação por opção sexual, salvo energúmenos. O que se pede – e, com certeza, ambos os candidatos não discordam, exceto talvez em detalhes – são políticas públicas e regras jurídicas que acolham a realidade já vivida em nossa sociedade. Estes são debates seculares e racionais, e nestes termos precisam e podem ser tratados por ambos os candidatos.
Faz-se necessário, neste momento, que cabeças sensatas de ambos os lados abram canal de comunicação visando recolocar o debate eleitoral nos trilhos da razão. Seria bom que ambos os candidatos manifestassem mútua solidariedade diante de ataques falsos e estúpidos, demarcando com clareza a agenda de discussão que interessa, de fato, ao Brasil moderno.
Eles têm muito o que divergir aí, na política educacional, na política de saúde, no papel do Estado, nas relações internacionais, nas prioridades de infra-estrutura, no tratamento ao meio-ambiente, nas reformas política e tributária etc. E devem dizer à sociedade que são as definições sobre esses pontos que conduzirão o Brasil para o futuro, cabendo à maioria político-eleitoral decidir o caminho que prefere, para os próximos quatro anos, sempre rumo ao esclarecimento e ao progresso.
Se o debate prosseguir agendado pelo atraso, ganhe quem ganhar, estará chocando o ovo da serpente.
Marcos Dantas é professor do Programa de Pós-Graduação da Escola de Comunicação da UFRJ.
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| EFE Líderes se reúnem cúpula da Unasul (União de Nações Sul Americanas), em Buenos Aires |
Claudio Lembo
De São Paulo
Os países desta América do Sul sempre foram desconsiderados no jogo político internacional. Alinhavam-se automaticamente a países centrais e abandonavam suas posições e interesses.
O fenômeno refletia a presença dominante de descendentes de europeus nos espaços privilegiados da administração pública. Entre os países hispanofalantes, os descendentes de espanhóis e os "criollos" eram dominantes.
Toda a política girava em torno de suas pessoas e, por elas, era dirigida. As nações indígenas eram marginalizadas e, quando possível, exterminadas. Ficavam submersas em zonas miseráveis e exploradas sem limites.
Por toda a América do Sul, as lutas populares foram intensas e dominadas por meio da força. Quando necessário, governos lançavam-se em guerras contra Estados vizinhos, na busca de um derivativo.
Com os conflitos exteriores, o nacionalismo tornava-se uma força incontrolável, mas frágil em termos de busca de soluções para as questões efetivas que atormentavam as populações.
Este mesmo nacionalismo frágil incentivou, muitas vezes, ódio contra o vizinho, mesmo que este se preserva em absoluta passividade. Ódios artificiais foram criados.
Argentinos e chilenos se enfrentaram. Peruanos e chilenos terçaram armas. Bolivianos e paraguaios combateram. Paraguaios e brasileiros lutaram. São algumas recordações melancólicas do passado desta América do Sul.
Alguns destes conflitos foram incentivados por poderosos interesses econômicos de empresas mineradoras ou transportadoras de produtos primários.
Outras vezes, os governos dos países desenvolvidos agiam mediante boicotes e violação de trados internacionais. Sempre mediante o uso da força ou da ameaça de seu uso contra os povos sul americanos.
As chancelarias europeias e muitos governantes do hemisfério norte procuravam na busca de efetiva dominação, lançar países contra países, tornando a América do Sul área de instabilidade.
Com a instabilidade surgia a insegurança e com esta a ausência de investimentos duradouros. Tudo era extrativismo de produtos primários com a utilização dos povos locais até a inanição.
Ditaduras perversas subjugavam as sociedades e vedavam qualquer espaço de participação as cadeias se encontravam repletas de adversários dos regimes ditatoriais.
Estes, por seu turno, obedeciam fielmente às diretrizes dos que contavam com interesses econômicos a serem protegidos contra os riscos da nacionalização das riquezas.
Surgiram os movimentos de democratização. Tardios, é verdade. Somente no passado Século XX, após regimes de extrema violência contra os direitos humanos, a situação começou a se alterar.
Com a queda das ditaduras, os povos sul americanos puderam dialogar sem preconceitos ou tolas concepções guerreiras ao estilo europeu. Os estrategistas já não examinavam cenários de futuros combates.
Os exércitos deixaram de se municiar prevendo futuros embates militares. Tratados comerciais substituíram acordos bélicos. As armas atômicas foram abandonadas, em acordo que honra a argentinos e brasileiros.
Pequenas rusgas comerciais são resolvidas em mesa de negociação, apesar de aparências enganadoras de profundo conflito. Os governantes da América do Sul apreenderam, com seus povos, a dialogar.
Este ambiente pode servir de exemplo para outras regiões. Os povos devem utilizar a diplomacia para afastar polêmicas profundas ou conflitos desnecessários.
A indústria da guerra é nefasta. A utilização da confrontação bélica, entre povos com os mesmos problemas e as mesmas origens, é no mínimo doentia.
Os países sul americanos devem continuar a operar reuniões continuas de seus lideres em organismos criados, neste espaço geográfico, com este objetivo. Nada de agressões verbais.
Estas não levam a nada. Só causaram transtornos no passado. Serviram àqueles que desejam dominar a América do Sul. Seu progresso, no entanto, exige união e ausência de quaisquer agressões.
Nosso sangue é comum.